1% pode mudar tudo.
Eu venho do mercado da propaganda, onde conheci dezenas de criativos (profissionais que trabalham na área de Criação). Olhando para a rotina dessa galera, incluindo a de quem vos fala, consegui distinguir dois tipos de criatividade: a Pró-Ativa e a Reativa. A primeira se manifesta a partir de uma motivação intrínseca para produzir algo novo e apaixonante. Gera um estado de entusiasmo, felicidade e faz com que o criador se sinta bem. Esta experiência é semelhante à noção de Mihaly Csikszentmihalyi de “Fluxo”, onde o criador é tomado por prazer e fascínio, sendo plenamente envolvido pelo processo. Para o criativo, a criatividade Pró-Ativa é emocionante e recompensadora. Basicamente porque o que motivou esse movimento veio de dentro, algo que o chamou para ação.
A Criatividade Reativa, por outro lado, se manifesta a partir de uma estímulo exterior (nas agências, os pedidos dos clientes), ou seja, o indivíduo tende a ser impulsionado pelas circunstâncias e não pela inspiração. O processo TAMBÉM resulta em algo novo e que traz resultados, mas a experiência é, de certa forma, infeliz e caracterizada por um estado de ansiedade e de certo desespero porque o criativo teme não atingir uma solução. Para ele, a criatividade Reativa é extremamente angustiante e sufocante.
A experiência e o processo está para Criatividade Pró-ativa, assim como o resultado e a recompensa está para a Criatividade Reativa, e combinação entre esses dois tipos representa a criatividade diária da maioria dos indivíduos.
Dessa forma podemos definir dois tipos de ambiente de trabalho: O que permite Criatividade Pró-Ativa e o que não permite. Alguns ambientes que apostam na Criatividade Pró-Ativa dos funcionários assumiram o modelo de Innovation Time Off (ITO). Uma filosofia de trabalho aplicada no Google, na 3M e em outras grande empresas, onde os funcionários podem dedicar 20% do seu tempo de trabalho a Projetos Paralelos que sejam, de alguma forma, relacionados com a empresa e que possam trazer frutos futuramente. Ou seja, 1 dia da semana é dedicado a projetos nas quais os funcionários realmente sentem paixão, tesão e vontade de fazer acontecer. Assim nasceram o Google Maps, Gmail, Post-it da 3M e inúmeros outros produtos/serviços que fazem parte do nosso dia a dia.
Agora, o que aconteceria se estudantes tivessem em sua grade escolar um processo semelhante, de estimulo à ação, para agirem com o coração nos projetos que eles quiserem?
Corta para: escola. Abre cena numa sala de aula com 30 alunos, às 9:30 da manhã, tendo aula de geografia com um professor considerado chato e rabugento. Um dos alunos pega o celular para ver que horas são, contando os segundos para o sinal bater e ir para o recreio correr e jogar bola. Já que está no celular, entra no WhatsApp ele envia uma mensagem para o grupo de colegas "Essa aula é um saaaco".
Hoje, a escola não induz e não estimula a sermos criativos de maneira pró-ativa, sempre existe alguma fronteira que não podemos ultrapassar. Ela está mais para uma fábrica do que para um espaço que potencializa, estimula e cataliza o potencial de jovens. A escola segue produzindo máquinas que respondem a comandos e perguntas. Várias pequeninas máquinas enfileiradas de maneira que uma não interfira na outra, onde uma outra máquina, também programada de maneira não-humana, vai instalando os softwares de geografia, química, matemática e português, que são as matérias que elas precisam saber para serem máquinas bem sucedidas. Faz-se o teste e se a máquina responder corretamente ela vai para outra série. Máquinas que atuam totalmente de forma reativa. Por quê? Em algum momento da história foi preciso desenvolver um sistema único e padronizado para colocar todos nos mesmos níveis de conhecimento, para preparar essas pessoas para um mundo onde tempo é dinheiro, e para um futuro incerto que é preciso segurança, estabilidade social, econômica e cultural.
Ok. O mundo mudou. Precisamos repensar algumas coisas. O reflexo disso é que no primeiro momento em que se pede para os estudantes tomarem uma decisão por si, no vestibular, elas travam. Dá bug. Porque elas não estão acostumadas a agirem com intuição, esse software não foi instalado nesse computador.
Eu não estudo sobre Educação, mas tenho me deparado com alguns vídeos, textos e artigos muito interessantes que projetam novos caminhos viáveis para uma educação mais alinhada com o mundo atual e com o que acredito. Um desses artigos quem me mostrou foi meu sócio Dudu Friedrich, publicado em outubro, na Wired, chamado Como novos e radicais métodos de ensino poderem desencadear uma geração de gênios (How a Radical New Teaching Method Could Unleash a Generation of Geniuses). Nele, a história de Sugata Mitra, um professor da Newcastle University, na Inglaterra, que em 1999 conduziu um experimento com crianças na Índia, dando acesso a elas a computadores, sem nenhuma introdução ou explicação sobre como utilizar aquela ferramenta. Fez um buraco na parede do seu escritório, que ficava perto de uma favela, e colocou um computador virado para o lado de fora. Ele estava curioso para saber o que aconteceria com as crianças no caso de ele não falar nada, apenas ligar o computador na tomada. E lá ficou, observando a distância. Em alguns minutos as crianças já sabiam como mexer na máquina. Ou seja, em 1999, ter acesso a um computador era raro na cidade de Nova Dheli, e o fato delas terem aprendido sozinhas, de maneira organizada e autogerida, a como manipular aquela máquina é impressionante. Onze anos, em 2010, ele fez o mesmo experimento em Kalikuppam, uma vila no sul da India, na tela, conteúdo de biologia molecular, e chamou crianças de 10 a 14 anos de idade dizendo "Olha, tem coisas muito legais aqui, eu acho que vocês vão se interessar". Novamente, não falou nada e deixou lá para ver o que acontecia. Durante os primeiros 75 dias, as crianças já sabiam mexer na máquina e já estavam aprendendo. Em seguida Mitra aplicou um teste sobre o conteúdo de biologia molecular e as crianças acertaram 25% das questões. Novamente, 75 dias depois, as crianças já estavam acertando quase todas as questões. Mitra resume o final do experimento com uma colocação inspiradora "The children are completely in charge.”
Moral: Se não é você que está controlando seu aprendizado, você não está aprendendo.
A sugestão que eu gostaria de propor é a seguinte: Precisamos estimular a criatividade pró-ativa desde cedo através da criação de espaços dentro das escolas onde os estudantes tem total autonomia para estudar sobre os assuntos de seus interesses e desenvolver suas habilidades em projetos que partem de suas motivações intrínsecas e genuínas. Acredito que é possível aplicar a lógica do Inovation Time Off desde a pré-escola. Uma transição dessas, de uma hora para outra, é complicada, eu sei. Vai mexer com toda a grade curricular. “20% por semana, hmm, não sei não, acho meio arriscado”. Mas vamos experimentar: e se fosse 1%? Que representa aproximadamente 1 hora por semana. Uma hora estimulando a intuição, a coragem e a paixão, equilibrando aulas formais de geografia, história, matemática com momentos onde só o que se espera do estudantes é que eles saiam da sala pilhados e com um sentimento próprio de “let’s make it awesome!”
A longo prazo, o que isso significa? Pró-atividade, autonomia e coragem para criar.