Os desafios de educar e compreender as necessidades das
crianças da contemporaneidade foram alguns dos aspectos abordados na palestra
do Cuidar é Básico da Educação Infantil “O que querem as crianças?”, na noite
de quinta-feira, 04 de setembro. Tânia Ramos Fortuna, pedagoga, professora e
coordenadora do Programa de Extensão Universitária da Faculdade de Educação da
UFRGS, “Quem quer brincar?”, trouxe aos presentes diversas pesquisas que
retratam o pensamento infantil atual.
Para a especialista, o que está ocorrendo é um infanticídio
na sociedade contemporânea, com crianças se tornando jovens e adultas cada vez
mais cedo. Tânia chamou a atenção, também, para que o zelo em excesso não se
transforme no que ela denomina de “infantocentrismo”, ou seja, focar tanto nas
crianças, enaltecendo-as como um “reizinho doméstico”. “Pensamos em tudo: na
segurança de casa, colocando telas nas janelas, escolhendo o piso e o mobiliário
correto para elas, ou fechando viagens de férias preocupados com elas. Quantas
vezes não saímos para almoçar pensando no que a criança pode comer?”,
questionou. Tamanha centração, garante a docente, não é garantia de bem cuidar
e amar.
Tânia alertou aos pais, se baseando em inúmeras pesquisas,
que as crianças sofrem com a ausência da figura materna e paterna. “Elas querem
estar junto dos pais, tê-los vivos e fortes, dentro de si”, explicou. A docente
mostrou uma pesquisa realizada em Porto Alegre com 150 crianças entre cinco e
dez anos de três escolas particulares que questionou sobre o que elas mais
querem. A resposta? A companhia dos pais para brincar e sair. Em 2001, o canal
infantil Cartoon Networks ouviu mais de mil crianças entre seis e dez anos de
quatro capitais brasileiras, e a família aparece como o centro de preocupação
do universo infantil: 83% afirmaram que querem estar junto dos pais.
Seja pela rotina exaustiva de trabalho dos pais, as crianças
da contemporaneidade são muito sozinhas, destaca Tânia. Um grupo de conversação
de São Paulo avaliou crianças de sete e oito anos e constatou que os animais de
estimação têm se tornado um grande aliado no combate à solidão na infância. “Eu ligo a TV no meu quarto e brinco com as
minhas bonecos, porque é chato brincar sozinha”, disse uma das crianças
entrevistadas. “Quando eu peço para a minha mãe brincar comigo, ela diz que
está cansada. Se eu insisto, ela fica irritada e briga comigo”, contou outra.
Tânia finalizou a palestra lembrando que o futuro das
crianças só depende que elas se tornem o que elas são de fato, sem a interferência
de ninguém. “E isso é responsabilidade da família também”, destacou.