Por Tiago Mattos - cofundador da Perestroika e ex-aluno do Farroupilha
A gente sempre conta a história dos acertos. Eu, que falo muito em público, posso dizer isso de experiência própria. Mesmo que você queira dividir os dias amargos, a expectativa geral é ouvir o que deu certo. Mesmo que você queira compartilhar os tombos, o pessoal quer saber como foi quando você subiu no pódio.
Afinal de contas, a gente quer o atalho. A receita de bolo. A fórmula de Bhaskara. Se deu certo com ele, pode dar certo comigo também, né?
Sim e não.
Percebo que há três tipos de pessoas. As com focos no resultado, com foco no desempenho e com foco no aprendizado. A definição é óbvia. O primeiro é pragmático e está preocupado com a parte direita do Excel. O segundo, acredita na dedicação, no suor, no esforço. E o terceiro sempre tenta tirar algo bom das experiências que viveu.
Apesar de todos estarem entrelaçados, percebo que as pessoas sempre têm predileção por um dos três.
Eu escolhi o terceiro caminho. Acho que, além de tornar a própria jornada mais interessante, me traz melhores resultados e desempenhos.
Porque geralmente, quem foca muito em resultado não costuma entender o caminho até lá. E ano que vem, a meta aumenta 20%. "Temos que dar um jeito".
Porque geralmente, quem foca muito no desempenho fica com aquela culpa judaico-cristã de que "é preciso sofrer na vida terrena para chegar a redenção". Eu acho que o dia-a-dia pode ser divertido, e isso não tem nada a ver com ser menos eficiente.
Já quem se preocupa com aprendizado costuma tirar lições de tudo. Das coisas boas e ruins. E naturalmente, paulatinamente, melhora o desempenho e o resultado.
Essa forma de pensar, apesar de me parecer a mais orgânica, assusta alguns. E eu entendo. O ser humano é o único animal que acelera seus ciclos naturais. Todas as outras espécies dão tempo ao tempo. Crescem quando têm que crescem. Procriam quando têm que procriar. Morrem quando têm que morrer.
Nós não. A gente quer queimar etapas. Quer que a criança entre um ano antes no colégio, sem a menor necessidade. Quer que a startup de ontem dê lucro amanhã. A gente suborna aqui, fura a fila ali, porque esperar é para os outros – não para mim.
Aceitar a naturalidade do crescimento é aceitar que os fracassos são parte importante do aprendizado. É parte orgânica de um ciclo que nos levará a um novo ciclo, e depois a outro, e depois a outro.
Tenho orgulho de vários acertos, assim como tenho também orgulho dos meus milhares de fracassos.
Lembro que, há alguns anos, escrevi um post falando mal de uma campanha publicitária. A história: fiquei sabendo que uma rádio havia criado um "viral" (cuide, há aspas) por conta própria. Não achei a postura muito profissional (imaginei que o mais correto fosse chamar uma equipe especialista no assunto – agência, produtora de conteúdo, sei lá) para dar voz à ideia. E resolvi criticar a campanha (menos pela campanha em si e mais pela dinâmica de mercado).
Postei. E confesso a vocês que nem imaginava que teria muita repercussão, já que o blog em que eu escrevia na época atingia poucas pessoas.
Foi aí que o tiro saiu pela culatra. A campanha não tinha sido criada pela própria rádio, mas por uma agência. Os envolvidos se enfureceram e, a partir daí, eu vivi dias de Cristo. Uma bola de neve que me perseguiu por um bom tempo. E que teve repercussões em ambientes que eu nunca, nem nos meus devaneios mais criativos, imaginaria.
Quis bancar o Robin Hood e acabei tomando a flechada.
Como fiz tudo de coração aberto, demorei alguns meses para entender o que tinha acontecido. E quando a ficha caiu, até tentei conversar, esclarecer. Tarde. Ninguém quis ouvir a minha opinião. Poucas coisas ferem tanto a auto-estima de um criador do que a crítica pública.
E, neste caso específico, os caras estavam cobertos de razão. Porque apesar de não haver má fé, eu não tinha o direito de fazer o que fiz. Não deveria ter escrito nada. Errei feio, errei rude.
A essa altura, eu já tinha sido xingado em corredores, atacado em comentários anônimos e bombardeado de hashtags no Lulu.
Fiquei eu, a minha consciência e o foco no aprendizado. Que, apesar de não ter resolvido a questão da forma que gostaria, pelo menos nunca me tirou o sono.
Moral da história: com foco no aprendizado, acho que vivemos de forma mais natural. Mais humana. Mais homo sapiens sapiens. Mais em harmonia com nós mesmos.
E menos executivo-da-multinacional-que-tem-que-bater-as-metas-hoje-e-de-novo-e-de-novo-e-de-novo-para-verem-como-sou-bom. Menos pai-que-quer-transferir-suas-neuras-para-um-filho-que-tem-o-direito-de-ser-criança. Menos quero-trocar-meu-carro-por-um-carro-melhor-para-verem-que-sou-mais-famoso-que-ele.
Com foco no aprendizado, a gente transforma a vida menos numa corrida e mais numa dança.
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*Título homônimo à aula que o Vinicius Malinoski deu para a Perestroika em 2009.